quinta-feira, 17 de maio de 2012

A espera é difícil

Parafraseando o meu bom e velho Jorge Ben em Zazueira, música consagrada na voz de Simonal:

"Ela vem chegando, e feliz vou esperando, a espera é difícil, mas eu espero sonhando".

A espera por essas férias foi difícil, mas elas chegaram. Você vai dizer: "difícil? A guria está morando na Itália, só estudando (ok, eu vou na rádio também), e acha que fez um baita esforço". É o que eu pensava antes de chegar aqui e entender por que os europeus só estudam. Não é só a questão emprego, até porque esse é um fenômeno mais recente e acentuado pela crise. É porque aqui realmente é preciso meter a cara nos livros. Nunca estudei tanto na minha vida (guardem essas palavras, porque eu não quero pronunciá-las tão cedo).
Babiana, toda feliz que seria a primeira vez na vida que não precisaria trabalhar e estudar ao mesmo tempo, achou que seria barbadíssima se matricular em quatro disciplinas. Para começar, no Brasil cada cadeira tem aula uma vez por semana, pelo menos na minha faculdade. Aqui, cada disciplina tem, no mínimo, dois encontros por semana e em horários sortidos, como meio da manhã e da tarde.
No Brasil, todo final de semestre, estamos atolados de trabalhos e mais as provas, sempre escritas e muitas de assinalar. Confesso que senti falta de redigir um textinho no Word e dos testes escritos (muitos com consulta), sempre mais de um para aumentar as chances de ser aprovado.
Em Verona, a maioria dos testes são orais e a semana de provas é, literalmente, em uma semana. Ou seja, quem decide fazer como eu, quatro disciplinas, corre o risco de ter exames no mesmo dia e mesmo horário. Isso acontece, por que os italianos têm diversas semanas de provas durante o ano e podem fazer uma disciplina em cada uma delas, a hora que quiser. Exemplo: eu posso cursar Direito Civil I esse semestre e fazer essa prova daqui a três anos, no final do curso.
Eu, como sou brasileira, resolvi conversar com os professores e consegui remanejar uma das três provas para outro dia desta mesma semana. Aí só fiquei com duas por dia, facinho. Minha lógica: tentar concluir tudo agora para sobrar tempo de viajar pela Europa. Agora que estou na posição em que almejava há umas semanas, tranquilamente sentada no sofá sem nenhum livro ao meu redor, estou convicta de ter tomado a melhor decisão. Mas, enquanto me preparava para as provas, a situação era muito mais aterradora.



Mesmo frequentando todas as aulas (sim, porque como havia mencionado em outro post, os italianos tem a opção de não ir a aula e só fazer a prova), anotando tudo o que eu conseguia, ainda precisava ler manuais jurídicos, com linguagem técnica e em italiano. Como boa brasileira, deixei para começar a ler umas duas semanas antes dos exames. Ah, dá tempo!!! E deu, só que começava a ler de manhã cedo e terminava na madrugada, mesmo que colírio algum liquidasse com a dor no meu olho.
Mas para que ler 1007 páginas _ 276 páginas de Direito Internacional, 499 de Direito do Trabalho, 232 de História do Direito _ e outras centenas de slides de Medicina Legal? Não tinha outra forma de estudar, tipo resumo de internet? Não, porque os professores abrem o livro na tua frente e pedem o que tem em determinada página. Eu vi isso acontecer.
Claro, que o contrário também é provável. A Paloma, que também estuda Direito, leu quatro vezes um livro de 400 páginas, de Direito da União Europeia. Sério, a guria acordava às 4:00 da manhã para começar a ler todos os dias. Chegou na hora de fazer a prova e adivinha: "Sei straniera? Allora parli un pò di come è il diritto per citadini extracomunitari" (ah, tu és estrangeira? então me fala um pouco de como funciona o direito dos cidadãos que não são da União Europeia). Detalhe: ela não estava estudando a lei dentro da União Europeia? Pois bem, como é que funciona para quem é de fora? Ou seja, nenhuma vírgula sobre esse assunto estava no livro. Mas Paloma, tu sei brava! Tanto que utilizou o bom e velho método de dedução e passou na prova.
Eu também superei todos os exames, não sei quanto equivale na UCS, mas tirei 21, 23, 24 e 26 sobre 30. Me dei melhor na disciplina da profe que eu apelidei carinhosamente de Minerva, não só porque ela deu a última nota que decidiu a minhas férias gerais, mas porque ela tem o mesmo perfil da Minerva do Harry Potter.
Però, quando eu mencionava que a espera é difícil, eu não me referia ao tempo que passei estudando, os longos dias em que eu fiquei em casa tomando banho de sol na sacada enquanto lia sobre Rousseau e o Contrato Social ou as noites em que deixei de cumprir a agenda Erasmus para sublinhar centenas de páginas na companhia de uma gelada (foto).
Não é a fila do postão, mas o difícil mesmo é esperar cinco horas em uma sala de aula até ser chamada para vomitar teoria em alguns minutos. Eu não estava passando mal, mas estava morrendo de ansiedade. Apesar de vários professores se revezarem na aplicação do teste, disciplinas como Direito Internacional e Direito do Trabalho, tinham mais de 60 alunos. E, como a chamada é por ordem de inscrição, lógico que fui uma das últimas a dizer presente. Compensa quando você acaba a prova e tem o italiano elogiado por uma professora e se vê no meio de um bate-papo comparando o Direito do Trabalho Italiano com o do Brasil.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Em busca do reconhecimento

Muita gente me pergunta sobre como está o meu processo para obter a cidadania italiana, mas esse é um assunto tão complicado, que eu não gosto muito nem de tocar. Mas como sei do interesse de tantos descendentes, que habitam a região de colonização italiana no Sul do Brasil, vou relatar brevemente e situação.
Comecei a buscar os documentos da família Favero, da minha mãe, em 2006. Tive até de fazer um processo judicial para um cartório liberar os documentos. Um primo meu foi diretamente na Itália pegar a certidão do meu nonno (foto). Quando defini o intercâmbio, no início do ano passado, não conseguia agendamento no Consulado de Porto Alegre para legalizar os documentos no Brasil, antes de partir. De última hora, acabou surgindo uma vaga e deu tudo certo.
Chegando em Verona, lugar famoso por ser um dos mais difíceis de se obter o reconhecimento da cidadania, tive dificuldades para dar início ao processo, porque meu visto era de estudante. Depois de muita conversa e interpretações de lei, que durou quase um mês, entrei na fila para a primeira etapa: obter a residência italiana.
Mais de três meses de espera e duas visitas do vigile (espécie de guarda municipal) para comprovar se eu estava morando mesmo na Itália, completei esta etapa necessária para que eu, finalmente, entregasse os documentos, na última sexta-feira.
Tudo que eu podia ter feito, fiz. Agora é só esperar e rezar...


domingo, 29 de abril de 2012

Jornalismo no Sangue

Enquanto a maioria dos estudantes estrangeiros aqui de Verona recém tinha adormecido ou ainda retornava da festa, eu via o nascer do sol para embarcar no trem que me levaria a descobrir minhas origens. Era uma manhã de domingo de primavera e eu ainda trocaria de trem em Mantova e Lodi, até desembarcar na mítica Melegnano, onde a encontraria. Não foi fácil chegar até aqui. A primeira vez que a vi foi  em uma reportagem que encontrei na internet. Salvei no meu computador aguardando o dia em que iria ao seu encontro na Itália.
Antes disso, porém, os mesmos ladrões que arrombaram minha casa e levaram álbuns de fotografias das minhas irmãs, também arrancaram de mim a informação preciosa que estava salva no meu note roubado. Repetidas pesquisas e nada de encontrar a reportagem que me daria as coordenadas para chegar ao seu, ou melhor, o meu destino. Já estava na Itália e a ponto de bater de porta em porta em asilos, até que um dia digitei a palavra mágica que estava faltando na pesquisa: PDF + o nome dela (esse último, lógico, sempre digitava na pesquisa). Encontrei!!!!!!!



No mesmo dia telefonei no asilo para confirmar se ela ainda me esperava. Sim, depois de 102 anos, esperar mais alguns dias não seria nada. Ao chegar, encontrei o vilarejo na planície da Lombardia em festa, mas depois descobri que era assim todos os domingos. Feira de queijos, grãos, flores, roupas e de tudo mais (foto). Na primeira padaria que pisei e perguntei onde ficava a Fondazione Castellini, uma jovem prontamente respondeu: "Eu sei, minha mãe trabalhava lá". Coisas de cidade pequena? Não, de mundo pequeno, mesmo.
Com flores, fui entrando lentamente enquanto escolhia as palavras em italiano para resumir uma história centenária, que inicia em Fadalto, no Vêneto, e se transporta para o Brasil. No caminho, fui abordada por uma senhora grisalha de braços aberto. Meu coração saltitou, mas era só uma nonninha querendo atenção no asilo. Quem eu procurava estava fazendo o cochilo da tarde... Logo despertou percebendo a aproximação de uma desconhecida.
Ao me apresentar como uma "parente" do Brasil, a centenário deixou a sonolência de lado. A jornalista pulou na frente da simples visitante e logo engatou uma pergunta na outra para confirmar a ligação sanguínea. Animada com o interesse, a nonna se remetia facilmente à infância na cidade do Vêneto, até a transferência com a tia para a cidade de Milão, onde encontrou suas duas paixões: o marido e a Inter de Milão.
Deixei a jornalista e a imparcialidade de lado e me emocionei ao ver aqueles traços no rosto, revelando uma árvore genealógica que não precisava mais de perguntas para ser comprovada. Sem entender porque uma desconhecida se desmanchava em lágrimas, a senhora pediu explicação para a fiel escudeira enfermeira, que escolheu a mais bela resposta: "ela é como se fosse uma neta sua".
Foi nesse momento que o que eu esperava aconteceu. Como uma legítima Mognol (é assim que se escreve o sobrenome na Itália, modificado pela tradução literal dos cartórios brasileiros), a véia começou a desconfiar.
Ela não chegou a pronunciar, mas deve ter pensado que eu estava interessada na sua herança, como muitos dos italianos pensam quando procurados por brasileiros bobos, como eu, que só querem saber a história da família. Em seguida, emendou um "non, non sono interesata", como se eu fosse uma vendedora ambulante oferecendo algo. Em vez de me sentir ofendida, sendo praticamente mandada embora, fiquei ainda mais admirada, porque foi mais uma prova de que ela era uma Mognol. Todo Mognol é desconfiado. Vai ver que é por isso que eu sou jornalista, desconfio sempre.
Antes de sair do asilo, porém, deixei um bilhete com o meu contato na esperança de que sua filha, que a visitaria horas mais tarde, o encontrasse.

"Sono Babiana Mugnol, discendente de Pietro Mugnol, nato a Fadalto, stessa città dove è nata la sua mamma Maria Mognol. Cerco informazione della origine di nostra famiglia".



No mesmo dia, a filha Vanda Mognol, 66 anos, telefonou ansiosa para agradecer por ter procurado sua mãe de 102 anos e para me oferecer um almoço. A verdade é que não era apenas eu que os procurava. Eles também queriam saber onde estava parte da família que havia imigrado no final do século XIX. Eles só sabiam que tinham ido para "as Américas", mas a melhor pista que tinham era de que havia Mognol nos Estados Unidos.
O encontro foi no último sábado (foto acima). Enquanto conversava com seu marido, Giovanni Marchese, um carteiro aposentado e cantor de ópera, e com a "carina" filha Cristina, Vanda preparava um risoto à trevisana, prato típico do Vêneto, região de onde viemos. Cozinhou a manhã inteira e depois passamos a tarde inteira comendo: primeiro o risoto, secondo piato de vitelo, queijos, torta... E não podia recusar, os Mognol consideram isso uma ofença, tanto na Itália como no Brasil. Se já me sentia em casa antes, agora que encontrei uma família aqui também, me sinto muito mais.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Minha trip

Doppo due settimane parliando solo inglese, sono felice di ritornare a casa e a questo blog. Mas continuo falando muito na minha humilde residência, a qual divido com duas polacas que preferem o inglês. Aliás, acho que estou falando mais do que o italiano, porque convivo mais com estrangeiros.
Mas esse post não será sobre línguas, embora seja sobre a cultura de quatro países que visitei na última quinzena: França, Inglaterra, Escócia e Irlanda. Comecei minha viagem pela crème de la crème. Não preciso explicar porque Paris é o destino mais procurado do mundo (com mais filas também), mas posso dizer o que tornou a minha experiência ainda melhor.
O que começou como um problema para conseguir hospedagem acabou se revelando uma das melhores formas de se conhecer um país. Além de caro, reservar hostel em Paris é quase uma missão impossível. Não encontrava vagas para cinco dias. Aí meu amigo sugeriu o couch surfing, uma espécie de rede social da internet, onde as pessoas se conhecem para trocar hospedagem. No começo, fiquei um pouco apreensiva. Meu medo não era de que essas pessoas abrissem suas casas interessadas em roubar órgãos, era o simples medo de não ficar à vontade.
Mas como não ficar à vontade quando te recebem com um café da manhã francês, com direito a croissants e amoras frescas, e ainda ovos mexidos com bacon (foto). Bem leve! O fato é que Nico, um engenheiro de computação que tem a música como paixão, abriu sua linda casa no bairro de Jaurè, entre Montmartre e Belleville, para três pessoas ao mesmo tempo: eu e mais dois amigos. Em certo momento, ele hospedou mais duas austríacas junto com a gente e a sala virou uma festa.


Talvez o couch surfing não tenha o conforto de um hotel, mas não difere muito de um hostel, onde você divide o mesmo aposento com várias pessoas. Aliás, a minha teoria é que só tem gente estranha em hostel, isso sem mencionar as pessoas que gostam de andar nuas. Mas a convivência com quem mora na cidade por meio do couch faz toda a diferença. Se não fosse assim, como eu faria um piquenique à beira de um canal, que não o famoso San Martin, mas com vista para a praça de Stalingrad e com a Torre Eiffel me iluminando.
A regra básica para quem faz couch surfing é exatamente essa, interagir com quem te recebe. O Nico, que estava comemorando seu centésimo hóspede, nunca teve problema com nenhum deles, mas disse que não gostava daquelas pessoas que simplesmente usavam sua casa, não trocavam uma palavra, apenas saíam fazer turismo e voltavam para dormir. O Nico é tão popular, que o meu amigo foi recebido em Londres por outro cara, que também já tinha ido pra Paris e ficado na casa dele.


Definitivamente, aconselho o couch surfing. Melhor que isso só a casa da Debbys (foto das meninas), amiga da família da minha colega de quarto na Itália. A londrina, moradora de Mortlake, aqueles típicos bairros ingleses com casinhas de boneca, nos emprestou um quarto e ainda indicou o melhor fish and chips de Londres e a melhor (e mais barata) loja de departamentos, a Primark, na Oxford Street. Só não comprei mais, porque a bagagem da Ryanair não comporta. Se Paris é a cidade mais linda do mundo pra visitar, Londres, com certeza, é a que eu escolheria para morar. A cidade é toda organizada, até o metrô é perfumado.



Mas surpreendente mesmo foi Edimburgo, me senti em uma cidade medieval. Sabia que era pequena, não precisava muitos dias para conhecer, mas tínhamos reservado dois dias para a Escócia. Porém, foi comprada a passagem errada e acabamos tendo apenas um dia na verdíssima Edimburgo (foto do cemitério), mas foi o suficiente para eu me apaixonar pela cidade. Quando chegamos estava chovendo, caindo o mundo. Depois começou a nevar e acabou o dia com Sol. Nada que fizesse o nosso guia escocês puxar um guarda-chuva. A outra guia, inclusive, estava de manga curta. Por sinal, devo divulgar o Free Tour, que pegamos também em Dublin. Tem em várias cidades da Europa, inclusive. Você faz uma caminhada pelos principais pontos da cidade e não gasta nada, apenas dá uns trocos para os guias, que realmente merecem. Em Edimburgo eu fiz também o Ghost Tour. Visitar os cemitérios da cidade que inspirou J. K. Rowling à noite não tem explicação.


Depois de Paris, Londres, Edimburgo, confesso que quando cheguei em Dublin fiquei um pouco perturbada. Mas logo Dublin te conquista, não só pelas festas, que fique claro! Grande parcela de culpa é da simpatia do povo irlandês. Tá, da Guinness também, confesso. Mas para dar mais aperto no peito na hora de ir embora, fomos conhecer um pouco do interior da Irlanda e o último dia de viagem foi espetacular. Visitamos castelos e jardins perdidos nas montanhas de Connemara, vimos irlandeses tocando banjo nas ruas de Galway e, na volta a Dublin, ainda tivemos a melhor noite do mundo no Temple Bar.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Live and Let FAN


"Bentrovati a tutti. Oggi parleremo di lavoro...", anuncia o mascote da rádio acima.
Quando a palavra trabalho é pronunciada nos jornais da Itália, não se fala em outro tema que não seja a reforma do estatuto do trabalhador, mais precisamente o articulo 18. Como estou cursando a disciplina de Diritto del Lavoro consigo entender um pouco do que se trata a discussão, mas nem vou tentar explicar as 500 manobras dos italianos em caso de demissão, porque isso ocupou páginas do meu caderno.
Aliás, ao contrário do que muita gente suspeita ao ver minhas fotos de festa no facebook, eu nunca tive de estudar tanto na minha vida. A Cristiane Barcelos sabe muito bem que eu ia para as aulas de Jornalismo apenas com uma caneta na bolsa. Nunca tive caderno, nem bloco, nem uma folha sequer Aqui na Itália, meu caderninho já está no fim. E o pior é que tenho de passar tudo a limpo para o computador para tentar entender o que escrevo em um italianês lindo.
No Jornalismo da UCS também nunca tive muito envolvimento com a rádio universitária, a não ser nas aulas. Aliás, minha experiência profissional em rádio se limitou as coberturas da Romaria de Caravaggio, que fiz para a Rádio Miriam, de Farroupilha. Por sinal, adorava cobrir a movimentação no santuário, principalmente no final da tarde, quando o trânsito de romeiros voltava a dar lugar às vacas, búfalos, pavões misteriosos e outros animais típicos da região da Capela de Todos os Santos, vulgo Busa.
Sempre tive a intenção de trabalhar aqui na Itália, mesmo sabendo que essa seria a primeira vez na minha vida que teria a oportunidade de somente estudar, pois sempre tive de trabalhar para pagar uma parte da faculdade e só agora juntei dinheiro suficiente para deixá-lo na Europa. No entanto, chego no pior momento do país, com taxa de desemprego de quase 10% e os jovens, entre 15 e 24 anos, são os que mais sofrem.
Mesmo assim, consegui um estágio voluntário na rádio da universidade. O dinheiro é o de menos, o mais importante é continuar tendo contato com o Jornalismo. Com certeza, eu enlouqueceria se ficasse seis meses apenas estudando leis, artigos, jurisprudência... A Fuori Aula Network (FAN) me salvou. Mandei um currículo e fui aceita na primeira semana que cheguei. A FAN é a primeira web rádio italiana, foi fundada lá nos primórdios de 2002, no tempo do winamp.
O bom desse trabalho é que, pra começar, eu escolhi o que queria fazer: o jornal do meio-dia, il giornale radio UniGR. E também posso ir de acordo com os meus compromissos, aulas e tudo mais. Comecei apenas na produção, principalmente da agenda cultural, depois passei para as notícias internacionais e de consumo até chegar a ir em coletivas. Até aí tudo bem, porque não precisava falar outra língua no rádio. Mas não demorou para eu ganhar os microfones.
Já participei de dois outros programas ao vivo. Um deles foi o Vademecum, guia intergalático para estudantes confusos, em que eu e a francesa Charlote fomos entrevistadas sobre o programa Erasmus de intercâmbio, pela Amira Turazzi, que já morou no Estados Unidos e em São Paulo, e pelo Mattia Bonato (foto do pessoal no estúdio abaixo). O outro, nesta quarta-feira, foi o RassegnaTi, comentário diário das principais notícias da Itália e do Mundo, também com a Amira. Aos poucos, vou ganhando cada vez mais coragem e o próximo passo deve ser apresentar o jornal do meio-dia.



Mais do que pegar a prática, a rádio me aproximou dos italianos nativos e do povo da comunicação, que parece ter um perfil universal mesmo. A galera da rádio é muito unida, talvez pelo fato de muitos estudantes serem de outras cidades vizinhas, tipo Vicenza, Brescia e tantos "paesinos", acabam tendo os colegas da FAN como a família em Verona. Então, a gente costuma estender os debates cotidianos para o happy hour. O pessoal da rádio também organiza várias festas nos bares da cidade, tipo no Art Café e no Bukowiski. Na Festa della Donna (sim, aqui na Itália eles comemoram mesmo), os meninos da rádio até apresentaram coreografia ensaiada e tudo para as mulheres. Mas o destaque mesmo é quando a galera promove a noite do karaokê (foto abaixo cantando com os polacos). Foi quando eu tive o prazer de ver todo mundo se emocionando com a versão italiana de Anna Giulia e Rasgatanga (Ragatanga).
Sentirei muita saudade de tudo isso quando voltar. Eu ainda prefiro escrever, mas seria tão bom continuar trabalhando em rádio também...




terça-feira, 13 de março de 2012

Demo via! Let`s go!


O sistema de transporte italiano vai muito bem obrigado, embora o motorista italiano tenha sua lei própria de trânsito. Ainda bem que são tantos os meios de locomação, que o automóvel não se torna a maior autoridade por aqui.

Desde que cheguei em Verona, entrei em um "auto" (aqui não vi ninguém usando essa expressão colona, eles andam in macchina mesmo) só quando peguei o táxi para chegar no meu residencial. Depois disso, nunca mais. Acho que vou estranhar muito quando voltar para o Brasil. Nos primeiros dias, caminhei sem parar. A pé, levo quase uma hora para chegar na faculdade.

A segunda opção é pegar um ônibus, que custa menos do que o Visate. A maior parte dos urbanos aqui de Verona utilizam gás natural. Não sei se a fabricante é a Marcopolo, mas sei que a fábrica caxiense comercializa vários modelos sustentáveis do tipo e não sei o porquê de Caxias não contar com nenhum deles.

Em 2010, quando fui a Lima no Peru, também fiquei impressionada com o sistema de metrô de superfície, utilizando ônibus fabricados em Caxias. Na época, eles estavam testando, mas agora está consolidado. De novo, não entendo porque Caxias não copia os bons exemplos.

Mas, para mim, a melhor opção de transporte é a bicicleta. Eu comprei a minha magrela usada em Padova, cuja oferta é maior e, portanto, o preço bem menor: 25 euros. A cidade tem uma das universidades mais antigas da Itália, mas não são apenas estudantes que pedalam, nonnos e nonnas também adoram andar de bike. Na cestinha, vai de tudo. Tem gente que leva até o cachorro.


Eu decidi que não vou investir nada na minha bici, até porque colocar cestinha custa mais do que o preço que paguei por ela e também há o risco de roubo. Mas comprei uma mochila pequena para levar meus materiais nas costas. Com ajuda do meu mp3, em 15 minutos estou na aula. Chego rápido e feliz!

Em todo o canto da cidade, tem estacionamento para as magrelas. Se não tem, basta prender em um poste. Vale até grade em janela (é, no primeiro mundo também tem grade). Já ciclovias não têm tantas, não. É preciso ter muita atenção.  O mesmo motorista que é exemplar na hora de parar na faixa para o pedestre atravessar não costuma dar a mesma atenção para os ciclistas. Aliás, os ciclistas recebem o mesmo tratamento dos carros, afinal aqui a bike não é lazer, é meio de transporte.

Um dos maiores problemas que enfrento diariamente são com os carros estacionados em pontos irregulares. É um mal de todo italiano, como mostra o registro do Ricardo Peterson Silveira em Milão. Os fiscais de Caxias, os amarelinhos, fariam a festa por aqui. Quem dera os motoristas ocupassem vagas de idosos, deficientes, farmácias e outras faixas amarelas.

Aqui, o italiano estaciona em qualquer lugar, qualquer lugar mesmo. Nem me impressiono mais com carro em cima da calçada, mas tem uns que, literalmente, abandonam o carro no meio da rua. Quando falo em próprias leis de trânsito, me refiro a isso.



De qualquer modo, a política de transporte italiana merece parabéns. O Dia sem Carro aqui em Verona é um exemplo. Diferentemente de Caxias e qualquer outra cidade do Brasil, quem tira o carro de casa nesse dia paga multa de 155 euros. Pelo menos, 56 foram multados no dia 20 de fevereiro.

O Dia sem Carro é uma iniciativa simbólica, mas que deixa de ser quando outras medidas são colocadas em prática, como o projeto Verona Bike. O sistema de Bike Sharing, aluguel de bicicletas, foi inaugurado no último sábado. É o mesmo sistema que já existe em grandes metrópoles, como Berlin, Barcelona e Milão.

São 250 bicicletas espalhadas em 20 pontos da cidade. A primeira meia hora é de graça, uma hora de passeio custa 50 centavos de euro e um dia inteiro sai por 2. Mas para quem não é turista e precisa usar mais tempo, o aluguel semanal custa 10 euros. Quanto você gasta por mês com Ozelame, pedágio, manutenção do carro e tudo mais? Pois é...

Isso tudo sem falar dos trens, que deve merecer um capítulo mais adiante, depois que viajar no EuroStar "submarino", de Paris até Londres. Aguardem!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Le donne italiane

Vou dar uma pausa nos posts burocráticos por uma boa razão: homenagear as mulheres, mais precisamente as italianas. Não deixa de ser um texto sobre um tipo de sistema italiano, porque "le donne" daqui costumam seguir um certo padrão.

Minha professora de Direito do Trabalho e diretora do departamento de Ciências Jurídicas da Università degli Studi di Verona deu uma entrevista no Jornal L`Arena criticando as comemorações do Dia da Mulher. Para ela, só flores não bastam, ainda há muito a conquistar.

Hoje na aula, ela apresentou um panorama da evolução das leis de proteção da mulher trabalhadora. Uns absurdos como empregadores obrigando as mulheres a assinar contrato se comprometendo a pedir demissão caso fossem se casar, ato interpretado pelos patrões como pretender ter vários filhos e licenças.

Apesar de abolidas tais barbaridades, as mulheres ainda são minoria nos mais altos cargos. Mas creio que será por pouco tempo, se depender do número delas nas universidades. Pelo menos no Direito em Verona, elas dominam. São a maioria absoluta.

De estrangeiros que fazem Direito, todas são mulheres. Obviamente, a maioria alemoa. Alemanha sempre fazendo escola. Mas voltando às mulheres italianas... Bem, elas não são bonitas por natureza, como as brasileiras (do carioquês brasileirax), elas são arrumadas. Até demais, para não dizer escorregando para o brega.

Logo que cheguei no aeroporto Fiumicino, em Roma, fiquei espantada com uma mulher de vestido curto, meia-calça, salto altíssimo, batom vermelho e um casaco de pele.  Pronta para uma festa às 9h da manhã ou voltando de uma? Pensei que era uma modelo, mas aí a visão começou a se multiplicar e eu entendi que é assim mesmo.



Mas, como aprendi com a carta de recomendações da minha amiga Nessa Doncatto, não podemos ficar "fissurados" em verdades absolutas e rótulos. Nem todas são assim, mas há uma boa quantidade de mulheres extremamente maquiadas arrastando peles pelas ruas italianas.

Eu particularmente adoro ficar observando as senhoras de idade. Essas sim combinam com os casacos de pele, escondendo o traje social engomadinho. Por enquanto, nenhuma delas me lembrou uma nonna italiana de avental.

Pelo menos nos centros da cidade, as nonnas esbanjam elegância. Tenho de ir logo para o interior, quero comer polenta e agnolini. Quero as nonnas que fazem as comidas, não só aquelas que lotam os cafés.

O uso da Louis Vuitton foi totalmente banalizado pra mim, aqui é tipo usar havaianas. Pior, porque aqui se você usa havaianas você é chique. De cada 10 mulheres que passam nas ruas de Verona, cinco tem uma bolsa do Luizão. E não é aquela do chinês, não! Me dei o trabalho de parar na frente para ver quantas pessoas saem com sacolas. E não precisei esperar muito para ver...

Se você usa a genérica Victor Hugo, amiga, vai se sentir comprando na Lebes aqui. Mas, de verdade, não é só pelas vestes de grife que as italianas aparentam um ar de superioridade. As jovens, pelo menos, não são de dar muito papo para as mulheres estrangeiras.

Segundo um certo amigo meu moreno entendido em mulheres loiras, que mora aqui em Verona há oito anos _  o que elimina outros suspeitos caxienses _ tem muitos italianos que não gostam de estrangeiros, porque sentem seus empregos ameaçados.

Será que algumas italianas não dão muita abertura para as brasileiras, porque não gostam de mais estrangeiras disputando também seus homens? Ainda é cedo para tirar qualquer conclusão.

De qualquer forma, a mulher italiana aparenta ser muito mais poderosa do que qualquer outra. Isso me causa admiração. É nesta hora que me orgulho de dizer que sou um pouco italiana também, para não dizer gringona mesmo.