domingo, 29 de abril de 2012

Jornalismo no Sangue

Enquanto a maioria dos estudantes estrangeiros aqui de Verona recém tinha adormecido ou ainda retornava da festa, eu via o nascer do sol para embarcar no trem que me levaria a descobrir minhas origens. Era uma manhã de domingo de primavera e eu ainda trocaria de trem em Mantova e Lodi, até desembarcar na mítica Melegnano, onde a encontraria. Não foi fácil chegar até aqui. A primeira vez que a vi foi  em uma reportagem que encontrei na internet. Salvei no meu computador aguardando o dia em que iria ao seu encontro na Itália.
Antes disso, porém, os mesmos ladrões que arrombaram minha casa e levaram álbuns de fotografias das minhas irmãs, também arrancaram de mim a informação preciosa que estava salva no meu note roubado. Repetidas pesquisas e nada de encontrar a reportagem que me daria as coordenadas para chegar ao seu, ou melhor, o meu destino. Já estava na Itália e a ponto de bater de porta em porta em asilos, até que um dia digitei a palavra mágica que estava faltando na pesquisa: PDF + o nome dela (esse último, lógico, sempre digitava na pesquisa). Encontrei!!!!!!!



No mesmo dia telefonei no asilo para confirmar se ela ainda me esperava. Sim, depois de 102 anos, esperar mais alguns dias não seria nada. Ao chegar, encontrei o vilarejo na planície da Lombardia em festa, mas depois descobri que era assim todos os domingos. Feira de queijos, grãos, flores, roupas e de tudo mais (foto). Na primeira padaria que pisei e perguntei onde ficava a Fondazione Castellini, uma jovem prontamente respondeu: "Eu sei, minha mãe trabalhava lá". Coisas de cidade pequena? Não, de mundo pequeno, mesmo.
Com flores, fui entrando lentamente enquanto escolhia as palavras em italiano para resumir uma história centenária, que inicia em Fadalto, no Vêneto, e se transporta para o Brasil. No caminho, fui abordada por uma senhora grisalha de braços aberto. Meu coração saltitou, mas era só uma nonninha querendo atenção no asilo. Quem eu procurava estava fazendo o cochilo da tarde... Logo despertou percebendo a aproximação de uma desconhecida.
Ao me apresentar como uma "parente" do Brasil, a centenário deixou a sonolência de lado. A jornalista pulou na frente da simples visitante e logo engatou uma pergunta na outra para confirmar a ligação sanguínea. Animada com o interesse, a nonna se remetia facilmente à infância na cidade do Vêneto, até a transferência com a tia para a cidade de Milão, onde encontrou suas duas paixões: o marido e a Inter de Milão.
Deixei a jornalista e a imparcialidade de lado e me emocionei ao ver aqueles traços no rosto, revelando uma árvore genealógica que não precisava mais de perguntas para ser comprovada. Sem entender porque uma desconhecida se desmanchava em lágrimas, a senhora pediu explicação para a fiel escudeira enfermeira, que escolheu a mais bela resposta: "ela é como se fosse uma neta sua".
Foi nesse momento que o que eu esperava aconteceu. Como uma legítima Mognol (é assim que se escreve o sobrenome na Itália, modificado pela tradução literal dos cartórios brasileiros), a véia começou a desconfiar.
Ela não chegou a pronunciar, mas deve ter pensado que eu estava interessada na sua herança, como muitos dos italianos pensam quando procurados por brasileiros bobos, como eu, que só querem saber a história da família. Em seguida, emendou um "non, non sono interesata", como se eu fosse uma vendedora ambulante oferecendo algo. Em vez de me sentir ofendida, sendo praticamente mandada embora, fiquei ainda mais admirada, porque foi mais uma prova de que ela era uma Mognol. Todo Mognol é desconfiado. Vai ver que é por isso que eu sou jornalista, desconfio sempre.
Antes de sair do asilo, porém, deixei um bilhete com o meu contato na esperança de que sua filha, que a visitaria horas mais tarde, o encontrasse.

"Sono Babiana Mugnol, discendente de Pietro Mugnol, nato a Fadalto, stessa città dove è nata la sua mamma Maria Mognol. Cerco informazione della origine di nostra famiglia".



No mesmo dia, a filha Vanda Mognol, 66 anos, telefonou ansiosa para agradecer por ter procurado sua mãe de 102 anos e para me oferecer um almoço. A verdade é que não era apenas eu que os procurava. Eles também queriam saber onde estava parte da família que havia imigrado no final do século XIX. Eles só sabiam que tinham ido para "as Américas", mas a melhor pista que tinham era de que havia Mognol nos Estados Unidos.
O encontro foi no último sábado (foto acima). Enquanto conversava com seu marido, Giovanni Marchese, um carteiro aposentado e cantor de ópera, e com a "carina" filha Cristina, Vanda preparava um risoto à trevisana, prato típico do Vêneto, região de onde viemos. Cozinhou a manhã inteira e depois passamos a tarde inteira comendo: primeiro o risoto, secondo piato de vitelo, queijos, torta... E não podia recusar, os Mognol consideram isso uma ofença, tanto na Itália como no Brasil. Se já me sentia em casa antes, agora que encontrei uma família aqui também, me sinto muito mais.

Um comentário:

  1. Pela desconfiada DOS ESTRANHO e pela comida obrigatória nas leis da casa, definitivamente são Mugnol. Agora tem que trazer os caras para o churrasco no plátano. Seguido de passeio no pedalinho.

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