quinta-feira, 17 de maio de 2012

A espera é difícil

Parafraseando o meu bom e velho Jorge Ben em Zazueira, música consagrada na voz de Simonal:

"Ela vem chegando, e feliz vou esperando, a espera é difícil, mas eu espero sonhando".

A espera por essas férias foi difícil, mas elas chegaram. Você vai dizer: "difícil? A guria está morando na Itália, só estudando (ok, eu vou na rádio também), e acha que fez um baita esforço". É o que eu pensava antes de chegar aqui e entender por que os europeus só estudam. Não é só a questão emprego, até porque esse é um fenômeno mais recente e acentuado pela crise. É porque aqui realmente é preciso meter a cara nos livros. Nunca estudei tanto na minha vida (guardem essas palavras, porque eu não quero pronunciá-las tão cedo).
Babiana, toda feliz que seria a primeira vez na vida que não precisaria trabalhar e estudar ao mesmo tempo, achou que seria barbadíssima se matricular em quatro disciplinas. Para começar, no Brasil cada cadeira tem aula uma vez por semana, pelo menos na minha faculdade. Aqui, cada disciplina tem, no mínimo, dois encontros por semana e em horários sortidos, como meio da manhã e da tarde.
No Brasil, todo final de semestre, estamos atolados de trabalhos e mais as provas, sempre escritas e muitas de assinalar. Confesso que senti falta de redigir um textinho no Word e dos testes escritos (muitos com consulta), sempre mais de um para aumentar as chances de ser aprovado.
Em Verona, a maioria dos testes são orais e a semana de provas é, literalmente, em uma semana. Ou seja, quem decide fazer como eu, quatro disciplinas, corre o risco de ter exames no mesmo dia e mesmo horário. Isso acontece, por que os italianos têm diversas semanas de provas durante o ano e podem fazer uma disciplina em cada uma delas, a hora que quiser. Exemplo: eu posso cursar Direito Civil I esse semestre e fazer essa prova daqui a três anos, no final do curso.
Eu, como sou brasileira, resolvi conversar com os professores e consegui remanejar uma das três provas para outro dia desta mesma semana. Aí só fiquei com duas por dia, facinho. Minha lógica: tentar concluir tudo agora para sobrar tempo de viajar pela Europa. Agora que estou na posição em que almejava há umas semanas, tranquilamente sentada no sofá sem nenhum livro ao meu redor, estou convicta de ter tomado a melhor decisão. Mas, enquanto me preparava para as provas, a situação era muito mais aterradora.



Mesmo frequentando todas as aulas (sim, porque como havia mencionado em outro post, os italianos tem a opção de não ir a aula e só fazer a prova), anotando tudo o que eu conseguia, ainda precisava ler manuais jurídicos, com linguagem técnica e em italiano. Como boa brasileira, deixei para começar a ler umas duas semanas antes dos exames. Ah, dá tempo!!! E deu, só que começava a ler de manhã cedo e terminava na madrugada, mesmo que colírio algum liquidasse com a dor no meu olho.
Mas para que ler 1007 páginas _ 276 páginas de Direito Internacional, 499 de Direito do Trabalho, 232 de História do Direito _ e outras centenas de slides de Medicina Legal? Não tinha outra forma de estudar, tipo resumo de internet? Não, porque os professores abrem o livro na tua frente e pedem o que tem em determinada página. Eu vi isso acontecer.
Claro, que o contrário também é provável. A Paloma, que também estuda Direito, leu quatro vezes um livro de 400 páginas, de Direito da União Europeia. Sério, a guria acordava às 4:00 da manhã para começar a ler todos os dias. Chegou na hora de fazer a prova e adivinha: "Sei straniera? Allora parli un pò di come è il diritto per citadini extracomunitari" (ah, tu és estrangeira? então me fala um pouco de como funciona o direito dos cidadãos que não são da União Europeia). Detalhe: ela não estava estudando a lei dentro da União Europeia? Pois bem, como é que funciona para quem é de fora? Ou seja, nenhuma vírgula sobre esse assunto estava no livro. Mas Paloma, tu sei brava! Tanto que utilizou o bom e velho método de dedução e passou na prova.
Eu também superei todos os exames, não sei quanto equivale na UCS, mas tirei 21, 23, 24 e 26 sobre 30. Me dei melhor na disciplina da profe que eu apelidei carinhosamente de Minerva, não só porque ela deu a última nota que decidiu a minhas férias gerais, mas porque ela tem o mesmo perfil da Minerva do Harry Potter.
Però, quando eu mencionava que a espera é difícil, eu não me referia ao tempo que passei estudando, os longos dias em que eu fiquei em casa tomando banho de sol na sacada enquanto lia sobre Rousseau e o Contrato Social ou as noites em que deixei de cumprir a agenda Erasmus para sublinhar centenas de páginas na companhia de uma gelada (foto).
Não é a fila do postão, mas o difícil mesmo é esperar cinco horas em uma sala de aula até ser chamada para vomitar teoria em alguns minutos. Eu não estava passando mal, mas estava morrendo de ansiedade. Apesar de vários professores se revezarem na aplicação do teste, disciplinas como Direito Internacional e Direito do Trabalho, tinham mais de 60 alunos. E, como a chamada é por ordem de inscrição, lógico que fui uma das últimas a dizer presente. Compensa quando você acaba a prova e tem o italiano elogiado por uma professora e se vê no meio de um bate-papo comparando o Direito do Trabalho Italiano com o do Brasil.

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